Aluno 99
Reescrita
Minha
mãe chega em casa por volta do meio dia dizendo:
- Olha
só, tenho uma notícia...
No tom
de voz usado senti que viria tragédia e, que meu pressentimento a ponto de
passar a noite em claro iria se cumprir. Ela segue:
- Teu
vô. Não sei grandes detalhes, mas não está boa a coisa...
Ligo
para meu pai que me atende com voz fúnebre:
-
Filha, teu vô teve um AVC. Ainda não sabemos maiores detalhes, mas ele está em
coma, na UTI do Moinhos.
Precisava
ir até o hospital vê-lo. Fui. Os elevadores do Moinhos pareciam que nunca foram
tão demorados: eu só queria chegar na UTI. Quando finalmente chega, eu, minha
avó e meus tios nos sentamos: a sala de espera lotada. Agora, eu só queria que
aquilo acabasse. Quando chega a hora, minha tia diz:
-
Entra tu primeiro, fala com ele... trata como se tivesse sentado na ponta da
mesa do sítio como fazia todos os dias. Virei as costas, colei a etiqueta no
peito e saí andando. Não conseguia encontrar o leito em que ele estava porque
meus olhos eram como poças d’água na calçada. Entro, finalmente. Meu avô estava
sem camisa – ele nunca ficava assim na frente das netas; e seu cabelo, com
poucos fios brancos, sempre bem alinhados, achavam-se um tanto desgrenhados e
de um lado raspados. Segurei um grito. Tentando demonstrar alegria mesmo em
lágrimas, disse:
-
Velho, não são seis da manhã e não é mais nossa manhã fria de inverno, mas,
acorda, levanta daí e vamos tomar um mate.
Levanto
o olhar e vejo que os batimentos dele aceleraram: ele me ouvia. O que falar?
Meu avô tinha olhos que tudo diziam, por isso era um tanto silencioso. Porém,
naquele momento lembrei que o meu silencio era maior que o dele: eu nunca havia
dito o quanto lhe amava. Levantei a mão esquerda dele, que davam duas mãos da
minha, morena, gélida e cheirosa. Agarrei-a. Por agarrá-la queria pensar que a
vida dele estava enclausurada
entre as minhas mãos: não escaparia a não ser que eu a largasse. Tomei coragem
e entre lágrimas e suspiros, deitada naquele peito que tanto me serviu de
travesseiro, disse o quanto pude a frase “eu te amo” e tudo que ele significava
para mim. O que podia dizer e fazer, tinha dito e feito.
Saí
dali com a certeza de que nunca mais teria o coração do meu vô a bater junto a
mim. Era quase daquela certeza que temos quando acordamos de manhã e intuímos:
hoje chove; e no fim chove mesmo. E assim aconteceu, quase uma semana depois eu
tornaria a dizer mais um pouco da importância dele para mim, mas ele veio até
meu encontro: meu avô saiu de lá, no dia de Santo Antônio, treze de junho com
os olhos fechados para o mundo. Morria meu avô, mas nascia um eu mais humano,
porque havia aprendido, na finitude da vida, que verbo quando é para se ditar
amor e afeto não se nega, tampouco, se poupa. Eu abria meus olhos para amar.
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