segunda-feira, 20 de junho de 2016

Amar: verbo para ser dito

Aluno 99
Reescrita


Minha mãe chega em casa por volta do meio dia dizendo:
- Olha só, tenho uma notícia...
No tom de voz usado senti que viria tragédia e, que meu pressentimento a ponto de passar a noite em claro iria se cumprir. Ela segue:
- Teu vô. Não sei grandes detalhes, mas não está boa a coisa...
Ligo para meu pai que me atende com voz fúnebre:
- Filha, teu vô teve um AVC. Ainda não sabemos maiores detalhes, mas ele está em coma, na UTI do Moinhos.
Precisava ir até o hospital vê-lo. Fui. Os elevadores do Moinhos pareciam que nunca foram tão demorados: eu só queria chegar na UTI. Quando finalmente chega, eu, minha avó e meus tios nos sentamos: a sala de espera lotada. Agora, eu só queria que aquilo acabasse. Quando chega a hora, minha tia diz:
- Entra tu primeiro, fala com ele... trata como se tivesse sentado na ponta da mesa do sítio como fazia todos os dias. Virei as costas, colei a etiqueta no peito e saí andando. Não conseguia encontrar o leito em que ele estava porque meus olhos eram como poças d’água na calçada. Entro, finalmente. Meu avô estava sem camisa – ele nunca ficava assim na frente das netas; e seu cabelo, com poucos fios brancos, sempre bem alinhados, achavam-se um tanto desgrenhados e de um lado raspados. Segurei um grito. Tentando demonstrar alegria mesmo em lágrimas, disse:
- Velho, não são seis da manhã e não é mais nossa manhã fria de inverno, mas, acorda, levanta daí e vamos tomar um mate.
Levanto o olhar e vejo que os batimentos dele aceleraram: ele me ouvia. O que falar? Meu avô tinha olhos que tudo diziam, por isso era um tanto silencioso. Porém, naquele momento lembrei que o meu silencio era maior que o dele: eu nunca havia dito o quanto lhe amava. Levantei a mão esquerda dele, que davam duas mãos da minha, morena, gélida e cheirosa. Agarrei-a. Por agarrá-la queria pensar que a vida dele estava enclausurada entre as minhas mãos: não escaparia a não ser que eu a largasse. Tomei coragem e entre lágrimas e suspiros, deitada naquele peito que tanto me serviu de travesseiro, disse o quanto pude a frase “eu te amo” e tudo que ele significava para mim. O que podia dizer e fazer, tinha dito e feito.
Saí dali com a certeza de que nunca mais teria o coração do meu vô a bater junto a mim. Era quase daquela certeza que temos quando acordamos de manhã e intuímos: hoje chove; e no fim chove mesmo. E assim aconteceu, quase uma semana depois eu tornaria a dizer mais um pouco da importância dele para mim, mas ele veio até meu encontro: meu avô saiu de lá, no dia de Santo Antônio, treze de junho com os olhos fechados para o mundo. Morria meu avô, mas nascia um eu mais humano, porque havia aprendido, na finitude da vida, que verbo quando é para se ditar amor e afeto não se nega, tampouco, se poupa. Eu abria meus olhos para amar.




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