segunda-feira, 20 de junho de 2016

Aluno 107
Reescrita


Tiago Iorc questiona: “quem é você que se esconde atrás de um nome qualquer?”, logo, o nome nada importa. Por enquanto. Eu sou a pessoa que não acredita em signos, no entanto, a maior característica do meu é a teimosia. Pensando bem, talvez eu até acredite em signos. Desde que me conheço por gente gosto de fazer as coisas do meu jeito, como eu quero, e não fazê-las desse modo me deixa muito chateada. Quem sabe toda essa teimosia se deve ao fato de as minhas vontades sempre terem sido reprimidas, pois meus dois irmãos mais velhos também tem suas vontades, e quase nunca são iguais as minhas. A escolha do restaurante pra jantar com a família, do sabor da pizza, do quarto na casa, de lavar ou secar a louça. Enquanto criança as escolhas de coisas bobas não afetavam muita coisa, mas a gente cresce, e precisamos decidir coisas importantes. Enquanto meus irmãos passavam no vestibular para Medicina na federal, eu entrava na escola. Mesmo ensino fundamental que eles. Mesmo ensino médio que eles. Mesmo ensino técnico que eles... não, a teimosia se fez presente. Ao começar a cursar um técnico em administração oferecido pela minha escola percebi que era a maior perda de tempo, e ao receber uma proposta para começar a trabalhar dando aula de inglês em uma escola de idiomas renomada da minha cidade resolvi desistir do técnico. Reviravolta na família. Foi aí que comecei a ser mais Mellina e menos Dener e Darwin – acho que agora o nome importa, pois é a partir daqui que minha identidade se constrói. “Mas tu vai aproveitar muito mais o técnico pra tua vida, vai acrescentar no teu currículo” minha família bombardeava argumentos. A teimosia venceu. Aos quinze anos, ser professora de inglês e passar 18 horas semanais na escola em que trabalhava era uma atividade de lazer. Ficar das 13h às 20h lá era divertido. Estar em sala de aula como a responsável por tudo era uma satisfação enorme. Organizar a aula do meu jeito satisfazia minha teimosia. Mas quem é que leva a sério o fato de uma menina de 15 anos dar aula? Minha família mais via isso como uma brincadeira que como um emprego. Aos quase 17 anos, depois de terminar o ensino médio, decidi fazer um cursinho pré-vestibular e passar um ano estudando muito, o objetivo era passar em Medicina, na federal, como o Dener e o Darwin fizeram. Larguei a coisa que mais me trazia satisfação, dar aula, e entrei uma rotina de estudos em que acordava as sete da manhã e estudava até as nove da noite, em casa e em aula. Teimosa de novo: por mais que insistissem para eu seguir a mesma rotina que meus irmãos seguiram quando eles passaram no vestibular, decidi montar a minha com meu método de estudos, muito diferente do deles. Cursinho diferente do que o que eles fizeram. Teimosa. Ao longo do ano virei amiga dos professores do cursinho, virei admiradora. Percebi que queria virar eles. Compartilhei a minha história com eles e recebi os maiores incentivos para continuar na profissão que eu tinha abandonado. E a expectativa de toda a família em ter mais uma médica junto? Destruí ela. Queria ser professora. Ser professora é ser heroína. E vicia. “Não acredito que te pagamos o melhor cursinho da cidade pra tu querer fazer Letras!!!!” “Tu vai morrer de fome” “A medicina te abre muitos caminhos” “Professora????”. Teimosa: não dei “o braço a torcer”. Bati o pé. E não adiantava ser qualquer universidade, tinha que ser na federal. Ao passar no vestibular pra Letras entramos em clima fúnebre. Não, eu não ia de modo algum pra Porto Alegre fazer um curso assim. Teimei. Argumentos e argumentos depois, passados Janeiro e Fevereiro como as férias menos férias da minha vida, vim morar na capital. Minha vida mudou radicalmente e hoje sou a versão mais autêntica de mim mesma. Com meus novos amigos aqui em Porto Alegre, teimo sobre a escolha do restaurante em que vamos almoçar na segunda, sobre o sabor da pizza, sobre como vamos fazer os trabalhos em grupo, sobre onde vamos na hora do intervalo. Atualmente, fazendo tudo que eu sempre quis fazer do jeitinho que sempre quis fazer, como a teimosa que sou, me sinto 107.


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