segunda-feira, 20 de junho de 2016

A Sombra

Aluno 105
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O senso comum diz que filhas mulheres tem maior facilidade de afetuar-se com a figura paterna. Porém, sempre há exceções, e a história da menina que contarei, caro leitor, é uma delas.
            Essa garota foi criada por sua mãe e seus avós maternos, e seu pai sempre foi ausente. Os poucos contatos com ele e sua família foram em sua longínqua infância, em aniversários e algumas datas festivas. Ela nunca se sentiu à vontade com sua presença, então, não se importava tanto que ele apenas aparecesse quando lhe conviesse. Tudo isso só fez com que sua relação com a mãe fosse de mãe, “pãe” e amiga.
            Cresceu com a sombra do homem que não a criou afastando-se a cada momento mais, pois quanto mais velha ficava, menos o via e menos tinha notícias suas. As poucas experiências das quais recordou, ao contar-me essa história, foram bastante ruins, por vezes até vergonhosas (como a vez que ele apareceu bêbado na pizzaria em que ela e sua mãe comemoravam um aniversário). Assim, ambas decidiram, juntas, que não havia mais a necessidade de tentar procura-lo. Da mesma forma, ele decidiu que se esqueceria de sua existência.
            O amor da sua família, mãe e avós, a acompanhou durante o resto de sua vida. A garota sempre foi muito inteligente e sempre almejou um futuro melhor do que o da mulher que a criou (apesar de amá-la, tem de concordar que ela trabalhou muito pra se sustentar através da arte). Por esse motivo, no ano em que estava prestes a se formar no ensino médio-técnico que cursava, decidiu focar-se nos estudos para vestibulares e para a prova que deixa todo e qualquer jovem na faixa dos dezoito anos assustado: o ENEM.
            No dia do referido exame, ela se sentia preparada, sentia que conseguiria o que sempre quis: através do ENEM, uma vaga na faculdade federal da capital de seu estado. Também se sentia muito orgulhosa, porque nessa mesma prova, sua mãe, a mulher que a criou tão bem, iria também tentar entrar em uma faculdade, estadual, por sua vez, para fazer o que sempre amou: estudar teatro. Grande surpresa foi quando, ao procurar a sala do exame, deu de cara com um cartaz, na porta da sala que continha seu número, onde tinham os nomes da primeira e última pessoa que ali realizariam a prova. O que estava escrito? Marcelo Sampaio, o nome de seu pai, a sombra parcialmente esquecida. Rapidamente chamou a atenção de sua mãe, que respondeu com um convicto “é um nome bastante comum, fica calma e boa sorte!”. A menina entrou na sala apreensiva, olhando para todos os lados, porém não viu ninguém que a fizesse recordar dele. Acalmou-se, escolheu um lugar na sala e concentrou-se para realizar o exame.
            Com cerca de dois minutos para iniciar a prova ela escuta a voz conhecida do homem que a abandonou, pedindo perdão pelo atraso do lado de fora da porta. No mesmo instante seu cérebro estanca. Ela o vê entrando, uma sombra. Um homem velho, esquecido, acabado. Ele escolhe a última cadeira da fila da janela. Ao que parece ele não a enxerga, ou finge que não. O exame começa e a garota sente-se apreensiva durante toda sua realização, olhando diversas vezes para trás. Ao retirar-se da sala, a sombra do pai da garota parece reconhecê-la, por milésimos de segundos ele para e parece realmente enxerga-la. É um tempo muito curto, e logo se esvai. Mais tarde, ao encontrar sua mãe, conta com detalhes o acontecido e ambas desabam em choro: acreditam que talvez, assim como a mulher, ele queira recuperar o tempo perdido e concertar o fato de ter largado a faculdade quando tinha tudo para continua-la. No segundo dia de prova, a história se repete, porém o homem não se atrasa. O segundo dia de prova é muito mais suado, e a garota acaba ficando entre os três últimos, que devem sair juntos ao final do tempo. Ao entregar a folha com suas respostas, sua passagem para o futuro, para o fiscal, percebe que ele também esta aí. Fica mais apreensiva do que já estava. “Eu estava com medo que ele viesse falar comigo, me sentia feliz em vê-lo ali, mas também triste, por ser essa a única maneira que tivemos de nos encontrar” foi o que ela me disse. Por fim, ao soar o sinal de término, ela saiu o mais rápido que pôde e escapou de um encontro desconfortável.
            Essa história, repassada pela garota várias vezes mais tarde, foi importante para que ela desenvolvesse, talvez, uma pequena empatia pela sombra de seu pai. Infelizmente, por motivos burocráticos de seu ensino médio, a garota não conseguiu a vaga tão sonhada naquele ano, o que fez que ela se dedicasse em estudar durante mais um, fazendo cursinho em sua cidade. E a história do ENEM anterior foi arquivada em uma das gavetinhas de seu cérebro. Porém, o que realmente não era esperado era que no ano seguinte ela se repetiria, e desta vez o homem a reconheceria e viria falar com ela no primeiro dia. A atitude da garota foi covarde: ela tentou, primeiramente, fugir dele, porém ele a alcançou e ela fez com que a conversa durasse o menos possível. Ele contou que fez um semestre de alguma faculdade no ano anterior, porém trancou, pois tentaria neste outra opção de curso. Apesar da maneira como ela reagiu, ficou feliz com as intenções dele: descobriu que ela e sua mãe estavam certas, ele tentava reconstruir seu futuro. A sombra começava a ganhar um pouco de cor e parecer menos com uma sombra.
            No segundo dia de prova, do segundo ano de exame em que eles dividiam sala, assim como no primeiro, o homem sentou-se próximo a ela. Ela já percebia algumas atitudes estranhas nele desde que havia entrado na sala. Demorou um pouquinho para que a garota entendesse o motivo pelo qual ele não conseguia ficar sentado e quieto: ele estava bêbado. O mundo da garota desabou e, para ela, foi bastante complicado terminar a prova. A sombra se avultou de tal maneira, em sua mente, que parecia tomar a sala inteira. Felizmente, e apesar de tudo, neste ano a garota conseguiu a vaga sonhada e não precisará encontra-lo mais vezes no exame. Também, segundo ela, aprendeu uma coisa bastante importante, para sua vida: quanto mais altas nós colocamos nossas expectativas, maior é a queda.


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