Aluno 105
Reescrita
O
senso comum diz que filhas mulheres tem maior facilidade de afetuar-se com a
figura paterna. Porém, sempre há exceções, e a história da menina que contarei,
caro leitor, é uma delas.
Essa
garota foi criada por sua mãe e seus avós maternos, e seu pai sempre foi
ausente. Os poucos contatos com ele e sua família foram em sua longínqua
infância, em aniversários e algumas datas festivas. Ela nunca se sentiu à
vontade com sua presença, então, não se importava tanto que ele apenas
aparecesse quando lhe conviesse. Cresceu com a sombra do homem que não a criou
afastando-se a cada momento mais, pois quanto mais velha ficava, menos o via e
menos tinha notícias suas.
O
que ela não imaginava era que o reencontraria em uma situação tão inusitada:
durante a realização da prova do ENEM. No dia do exame, a garota se sentia
preparada para conseguir uma vaga na faculdade através dele, e orgulhosa por
sua mãe estar também ali realizando-o, correndo atrás de seu futuro. Ao
procurar a sala do exame, deu de cara com um cartaz na porta da sala que
continha seu número, onde tinham os nomes da primeira e última pessoas que ali
realizariam a prova. O que estava escrito? Marcelo Sampaio, o nome de seu pai,
a sombra parcialmente esquecida. Rapidamente chamou a atenção de sua mãe, que
respondeu com um convicto “é um nome bastante comum, fica calma e boa sorte!”.
A menina entrou na sala apreensiva, olhando para todos os lados, porém não viu
ninguém que a fizesse recordar dele. Acalmou-se, escolheu um lugar na sala e
concentrou-se para realizar o exame.
Com
cerca de dois minutos para iniciar a prova, ela escuta a voz conhecida do homem
que a abandonou, pedindo perdão pelo atraso do lado de fora da porta. No mesmo
instante seu cérebro estanca. Ela o vê entrando, uma sombra. Um homem velho,
esquecido, acabado. Ele escolhe a última cadeira da fila da janela. Ao que
parece ele não a enxerga, ou finge que não. O exame inicia e a garota se sente
apreensiva durante toda sua realização. Ao retirar-se da sala, a sombra do pai
da garota parece reconhece-la, por milésimos de segundos ele para e parece
realmente enxerga-la. É um tempo muito curto e logo se esvai. No segundo dia de
prova, ambos ficam até o final da prova, tendo dessa forma, que sair da sala ao
mesmo tempo. A garota, apreensiva por não querer comunicar-se com ele, ao sinal
de término, saiu o mais rápido que pôde e escapou de um encontro
desconfortável.
No
ano seguinte, ela, por motivos burocráticos de seu ensino médio, teve que
realizar novamente o exame. E não imaginava que a história do ENEM anterior,
arquivada em uma das gavetinhas de seu cérebro, se repetiria. Porém desta vez,
o homem a reconheceu e foi até a garota. A atitude dela, por sua vez, foi
covarde: tentou, primeiramente, fugir, mas ele a alcançou e ela fez com que a
conversa durasse o mínimo possível. Ele contou que estava buscando encontrar
alguma faculdade que gostasse, tentando vários cursos. A sombra começava a
ganhar um pouco de cor e parecer menos com uma sombra.
Porém,
no último dia de provas em que eles partilharam a sala, ela percebeu que ele
vinha tendo algumas atitudes estranhas. Demorou um pouquinho para que a garota
percebesse que ele estava bêbado. O mundo da garota desabou. A sombra de
avultou de tal maneira, em sua mente, que parecia tomar a sala inteira.
Felizmente, após esse ano a garota não precisará mais realizar a prova e
consequentemente, não o encontrará mais na sala do exame. Também, segundo ela,
aprendeu uma importante lição para sua vida: quanto mais altas nós colocamos
nossas expectativas, maior é a queda.
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