segunda-feira, 20 de junho de 2016

A sombra

Aluno 105
Reescrita


            O senso comum diz que filhas mulheres tem maior facilidade de afetuar-se com a figura paterna. Porém, sempre há exceções, e a história da menina que contarei, caro leitor, é uma delas.
            Essa garota foi criada por sua mãe e seus avós maternos, e seu pai sempre foi ausente. Os poucos contatos com ele e sua família foram em sua longínqua infância, em aniversários e algumas datas festivas. Ela nunca se sentiu à vontade com sua presença, então, não se importava tanto que ele apenas aparecesse quando lhe conviesse. Cresceu com a sombra do homem que não a criou afastando-se a cada momento mais, pois quanto mais velha ficava, menos o via e menos tinha notícias suas.
            O que ela não imaginava era que o reencontraria em uma situação tão inusitada: durante a realização da prova do ENEM. No dia do exame, a garota se sentia preparada para conseguir uma vaga na faculdade através dele, e orgulhosa por sua mãe estar também ali realizando-o, correndo atrás de seu futuro. Ao procurar a sala do exame, deu de cara com um cartaz na porta da sala que continha seu número, onde tinham os nomes da primeira e última pessoas que ali realizariam a prova. O que estava escrito? Marcelo Sampaio, o nome de seu pai, a sombra parcialmente esquecida. Rapidamente chamou a atenção de sua mãe, que respondeu com um convicto “é um nome bastante comum, fica calma e boa sorte!”. A menina entrou na sala apreensiva, olhando para todos os lados, porém não viu ninguém que a fizesse recordar dele. Acalmou-se, escolheu um lugar na sala e concentrou-se para realizar o exame.
            Com cerca de dois minutos para iniciar a prova, ela escuta a voz conhecida do homem que a abandonou, pedindo perdão pelo atraso do lado de fora da porta. No mesmo instante seu cérebro estanca. Ela o vê entrando, uma sombra. Um homem velho, esquecido, acabado. Ele escolhe a última cadeira da fila da janela. Ao que parece ele não a enxerga, ou finge que não. O exame inicia e a garota se sente apreensiva durante toda sua realização. Ao retirar-se da sala, a sombra do pai da garota parece reconhece-la, por milésimos de segundos ele para e parece realmente enxerga-la. É um tempo muito curto e logo se esvai. No segundo dia de prova, ambos ficam até o final da prova, tendo dessa forma, que sair da sala ao mesmo tempo. A garota, apreensiva por não querer comunicar-se com ele, ao sinal de término, saiu o mais rápido que pôde e escapou de um encontro desconfortável.
            No ano seguinte, ela, por motivos burocráticos de seu ensino médio, teve que realizar novamente o exame. E não imaginava que a história do ENEM anterior, arquivada em uma das gavetinhas de seu cérebro, se repetiria. Porém desta vez, o homem a reconheceu e foi até a garota. A atitude dela, por sua vez, foi covarde: tentou, primeiramente, fugir, mas ele a alcançou e ela fez com que a conversa durasse o mínimo possível. Ele contou que estava buscando encontrar alguma faculdade que gostasse, tentando vários cursos. A sombra começava a ganhar um pouco de cor e parecer menos com uma sombra.
            Porém, no último dia de provas em que eles partilharam a sala, ela percebeu que ele vinha tendo algumas atitudes estranhas. Demorou um pouquinho para que a garota percebesse que ele estava bêbado. O mundo da garota desabou. A sombra de avultou de tal maneira, em sua mente, que parecia tomar a sala inteira. Felizmente, após esse ano a garota não precisará mais realizar a prova e consequentemente, não o encontrará mais na sala do exame. Também, segundo ela, aprendeu uma importante lição para sua vida: quanto mais altas nós colocamos nossas expectativas, maior é a queda.

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