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Aluno 105
Sábado, 12 horas, mochila nas costas,
duas sacolas nas mãos, cheia de casacos e mantas pra suportar os ventos
cortantes do inverno da capital do estado do Rio Grande do Sul. Niqueleira na
mão livre, catando as moedas mais baixas: dez, vinte, setenta, um e vinte, um e
setenta. Pronto. Joga a carteira na sacola que não enrolou a alça no braço.
Tudo isso, caminhando, quase correndo, descendo as escadas que a levarão à
bilheteria do trensurb. Tem fila, e tá longa. Umas quinze pessoas batendo os
pés, todas com pressa. Com dificuldade, espia o relógio. Três minutos para o
próximo trem, para o apito soar. A coisa tá feia. Ao menos está protegida do
vento gelado por algum tempo. A fila anda relativamente rápido, o caixa tem
prática no assunto. Sua vez, um e setenta na mão, entrega para o homem do outro
lado da janelinha transparente, pega o cartão e sai na rasgada. Quatro roletas
com a seta verde luminescente indicando passagem, apenas a última vazia. Corre
até ela, coloca o cartão no local indicado e espera segundos atormentadores até
que a máquina esdrúxula o engole e processa o fato. Luz verde: pode andar. Como
de costume, com a mão livre, empurra a catraca para frente, sem encostar seu
corpo nela.
Espiada
rápida no relógio enquanto corre mais um pouquinho no longo corredor
subterrâneo que separa as catracas da entrada, da estação “rodoviária” do trem.
Em dias mais vindouros, sem atrasos, normalmente consegue apreciar os grafites
que rodeiam o corredor, cheios de cores e significados. Mas esse não é o caso
hoje. Hoje apenas corre. Escolhe uma lateral para percorrer seu caminho.
Escolha inteligente, pois há menos fluxo de pessoas, consequentemente, menos
esbarrão. Ao chegar no fim do corredor, a mochila quase escorregando do ombro,
sente o vento que indica que ele acaba de parar na plataforma.
Inconscientemente, segue em frente, pela escada rolante. Maldito erro. Como na
fila, há muitas pessoas em sua frente, aparentemente sem pressa. Adicionado a
isso, sente o vento gelado soprando. Consegue ver ao longe as portas prateadas
se abrindo e o povo que esperava atrás (ou não) da faixa amarela se esgueirando
por elas. O trem é novo, daqueles com as minitelevisões que facilitam a vida
dos desavisados. A escada termina sua íngreme subida e por sorte, se correr
rápido o suficiente, dá de cara com uma das portas. Arruma a alça da mochila e
com o pé na linha amarela o escuta. O apito. O soar das portas que se fecham. A
luz vermelha acende sobre sua cabeça. Rapidamente vira seu corpo lateralmente e
consegue passar raspando pelas laterais que se fecham. Inacreditavelmente,
encontra-se no interior lotado de um trem, cheia de mantas e casacos, com duas
sacolas na mão e sua mochila nas costas, às 12 horas e cinco minutos de um
sábado.
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