segunda-feira, 20 de junho de 2016

O apito

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Aluno 105


Sábado, 12 horas, mochila nas costas, duas sacolas nas mãos, cheia de casacos e mantas pra suportar os ventos cortantes do inverno da capital do estado do Rio Grande do Sul. Niqueleira na mão livre, catando as moedas mais baixas: dez, vinte, setenta, um e vinte, um e setenta. Pronto. Joga a carteira na sacola que não enrolou a alça no braço. Tudo isso, caminhando, quase correndo, descendo as escadas que a levarão à bilheteria do trensurb. Tem fila, e tá longa. Umas quinze pessoas batendo os pés, todas com pressa. Com dificuldade, espia o relógio. Três minutos para o próximo trem, para o apito soar. A coisa tá feia. Ao menos está protegida do vento gelado por algum tempo. A fila anda relativamente rápido, o caixa tem prática no assunto. Sua vez, um e setenta na mão, entrega para o homem do outro lado da janelinha transparente, pega o cartão e sai na rasgada. Quatro roletas com a seta verde luminescente indicando passagem, apenas a última vazia. Corre até ela, coloca o cartão no local indicado e espera segundos atormentadores até que a máquina esdrúxula o engole e processa o fato. Luz verde: pode andar. Como de costume, com a mão livre, empurra a catraca para frente, sem encostar seu corpo nela.
            Espiada rápida no relógio enquanto corre mais um pouquinho no longo corredor subterrâneo que separa as catracas da entrada, da estação “rodoviária” do trem. Em dias mais vindouros, sem atrasos, normalmente consegue apreciar os grafites que rodeiam o corredor, cheios de cores e significados. Mas esse não é o caso hoje. Hoje apenas corre. Escolhe uma lateral para percorrer seu caminho. Escolha inteligente, pois há menos fluxo de pessoas, consequentemente, menos esbarrão. Ao chegar no fim do corredor, a mochila quase escorregando do ombro, sente o vento que indica que ele acaba de parar na plataforma. Inconscientemente, segue em frente, pela escada rolante. Maldito erro. Como na fila, há muitas pessoas em sua frente, aparentemente sem pressa. Adicionado a isso, sente o vento gelado soprando. Consegue ver ao longe as portas prateadas se abrindo e o povo que esperava atrás (ou não) da faixa amarela se esgueirando por elas. O trem é novo, daqueles com as minitelevisões que facilitam a vida dos desavisados. A escada termina sua íngreme subida e por sorte, se correr rápido o suficiente, dá de cara com uma das portas. Arruma a alça da mochila e com o pé na linha amarela o escuta. O apito. O soar das portas que se fecham. A luz vermelha acende sobre sua cabeça. Rapidamente vira seu corpo lateralmente e consegue passar raspando pelas laterais que se fecham. Inacreditavelmente, encontra-se no interior lotado de um trem, cheia de mantas e casacos, com duas sacolas na mão e sua mochila nas costas, às 12 horas e cinco minutos de um sábado.


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