segunda-feira, 20 de junho de 2016

Aluno 108
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Quando eu era criança tinha o sonho de ser cientista e trabalhar com pesquisas e experiências químicas. Talvez influenciada pela minha irmã que estudava Química na faculdade, mas certamente por um desenho animado do Cartoon Network em que o menino tinha um laboratório atrás da estante de livros. Inspiração que me levou a pegar as ferramentas do meu pai para construir um laboratório secreto, infelizmente só consegui tirar o reboco da parede do meu quarto antes dos meus pais verem.
 E quando eu descobri a existência do prêmio Nobel decidi que seria a primeira criança a recebê-lo. Então iniciei diversos projetos científicos, como escavações no pátio de casa em busca de fósseis antigos, desenvolvimento de cosméticos a partir da folha da bergamoteira, entrei até no ramo armamentista com a criação de um lança-chamas feito com o abajur da minha mãe e um pouco de acetona. Mas eu sabia que estava faltando alguma coisa para eu me tornar uma cientista de verdade, eu só não sabia bem o que era.
O que torna possível imaginar a minha reação quando o meu pai falou que me inscreveria no sorteio para entrar no colégio de Aplicação, um lugar onde eu teria aulas de iniciação científica! Fiquei tão entusiasmada com a ideia de ser sorteada que durante noites a fio sonhei como seria. Nunca fui tão religiosa, acendi velas, rezava todas as noites antes de dormir, mentalizava o meu nome sendo chamado. Qualquer coisa que me colocasse lá dentro.
Quando o dia do sorteio finalmente chegou eu mau podia conter a minha ansiedade. Quando os nomes dos colocados começaram a ser chamados minha mão gelou e meu corpo todo tremia, só conseguia pensar 531, que era meu número no sorteio. Assim que o diretor Edson falou o número eu soltei um grito tão alto que todos olharam para mim. Felicidade me descrevia com exatidão.
As expectativas que nutri tão carinhosamente se concretizaram. Eu estava onde queria. Lá me ensinaram como fazer uma verdadeira pesquisa científica, e a cada semestre eu tinha de fazer uma nova. No começo foi bem difícil, mas eu me adaptei. Só que eu ainda não era uma cientista, então decidi que me tornaria uma física (porque eu descobri que achava química muito chato).
Durante quatro anos exercitei a minha teimosia insistindo que faria física na faculdade. E quanto mais eu ouvia que física não era para mim mais eu queria fazer. Eu só percebi que estava errada quando consegui uma bolsa no CNPq em física meteorológica, na qual eu percebi que não me interessavam os cálculos para descobrir os níveis de poluição, mas no que isso interferia na vida dos habitantes de Porto Alegre. Foi um tombo muito grande. Tão grande que eu passei a achar que não existia nenhum curso certo para mim.
De inabalavelmente decidida passei a completamente indecisa. Já quis cursar muitos cursos, desde Física até Artes Visuais. Quando tive que escolher de verdade optei por Letras, e acredito que tenha feito a escolha certa. Até porque a ficção sempre fez parte da minha vida.

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