segunda-feira, 20 de junho de 2016

O apito

Aluno 105
Reescrita



            Sábado, 12 horas, mochila nas costas, duas sacolas nas mãos, cheia de casacos e mantas pra suportar os ventos cortantes do inverno da capital do estado do Rio Grande do Sul. Atrasada para uma reunião importante, caso de vida ou morte. Todo sábado é a mesma história. Sair pra pegar, na estação rodoviária, o trensurb.
            Normalmente, tudo corre bem, mas neste dia, pôs sua habilidade à prova. E é isso que vai ensinar: como se esgueirar, cheia de coisas, pela porta deslizante do trem. De maneira muito perspicaz e que não convém descrever aqui, passa-se pelas escadas, pela bilheteria, pelas roletas e pelo comprido corredor, para chegar ao último nível, logo após a escada rolante: a plataforma.
            Parece uma tarefa simples, ‘é só atravessar a plataforma, um pé após o outro, correndo e pronto’. Pois não é. Assim que acaba a íngreme subida da escada rolante, há a necessidade de se calcular a distância entre onde se está e a parte interna do vagão, tudo isso em função do tempo até o apito soar, a luz vermelha acender e a porta de fechar. Todo esse cálculo leva segundos, aqueles segundos de impacto, de choque quando você sente o vento frio (que não podia ser sentido antes, no corredor protegido) na parte de trás do pescoço.
            Cálculo mental feito, chega a hora de correr desviando dos obstáculos, também conhecidos como transeuntes despreocupados. A técnica consiste em elevar as sacolas o mais próximo da cabeça possível e dar passos curtos, respirações entrecortadas.  Dessa forma, é mais fácil não bater de frente em outrem.
            Normalmente, nesse meio tempo o famigerado apito de fechamento das portas soa, e aí, é necessário aplicar a técnica dos passos largos, meio pulados, que consiste, basicamente nisso: aumentar a distância dos seus pés e fazer isso de maneira meio ‘pulada’, utilizando mais a ponta dos pés. Por último, logo após passar-se a faixa amarela no chão (indicativo de muita proximidade), é necessário girar o corpo lateralmente com muita destreza, lembrando-se de abaixar as sacolas. Cuidado! Nesse momento a mochila pode escorregar do ombro! Para que isso não aconteça, no momento que baixar as sacolas, leve uma das mãos diretamente à alça da mochila. Ufa, parece que tudo deu certo! Conseguiu-se passar raspando pelas laterais da porta que se fecham. Inacreditavelmente, encontra-se no interior lotado de um trem, cheia de mantas e casacos, com duas sacolas na mão e sua mochila nas costas, às 12 horas e cinco minutos de um sábado.


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