Aluno 108
Reescrita
Sempre achei elegante a
forma como as modelos desfilavam na passarela, cruzando as pernas, balançando
os braços e rebolando com um equilíbrio inabalável. Todos os dias, depois da
escola, eu ligava o rádio, colocava o meu CD da Kelly Key e treinava a minha
caminhada de passarela. Arrastava a minha cama para a parede e andava de um
lado para o outro do quarto imaginando os fotógrafos e os fãs assistindo da
plateia, acreditava que era uma expert no assunto.
Certo dia, a professora anunciou para a minha turma que
haveria um desfile de primavera e todos poderiam participar. Em dias
intercalados os concorrentes ficavam depois da aula, arrastávamos cadeiras e
classes para os cantos da sala, demarcávamos a passarela no chão com fita
adesiva e colocávamos um espelho no fim do percurso, que normalmente era
próximo ao quadro. O plano era andar pelo caminho estabelecido fazendo poses
diferentes em ambas as pontas. Porém percebi que era exatamente o que eu já
fazia no meu quarto, só que sem trilha sonora. Então conclui que não faria
sentido uma menina tão experiente como eu ficar treinando junto com aqueles
iniciantes.
O dia chegou e eu não poderia estar mais preparada. Tinha
pintado as unhas, comprado roupas novas, feito duas tranças e estava me
sentindo uma verdadeira diva. Chegando à escola encontrei a professora
desesperada, ela ainda não tinha me visto ensaiar e temia que quando chegasse a
hora eu não soubesse o que fazer. Então eu disse a ela que ficasse tranquila,
porque eu já havia participado de outros desfiles e sabia como fazer. O que eu
não disse é que esses desfiles tinham acontecido no meu quarto para os emus fãs
imaginários.
Assim que a professora anunciou o inicio do desfile de
primavera fomos todos para a quadra da escola. As arquibancadas estavam cheias
de amigos e parentes que gritavam e aplaudiam. Atrás do palco formamos uma
longa fila e quando chegava a vez de alguém o seu nome era anunciado no
microfone para que subisse os três degraus e começasse a desfilar. Eu estava no
meio da fila e conforme chegava a minha vez o nervosismo aumentava. O lado
positivo de não ser uma das primeiras é que se pode perceber as falhas dos
outros para não repeti-las. Reparei que nenhum dos meus concorrentes sabia
andar como modelo, ninguém estava rebolando enquanto caminhava. Pois eu os
mostraria como é que se faz.
Então chegou a minha vez e eu subi no palco com muita
confiança. Parei de lado com as mãos nos quadris, mandei um beijinho para a
plateia e comecei a andar me concentrando em cruzar as pernas e rebolar o
máximo possível. Eu podia ouvir os gritos e as risadas vindos da arquibancada,
um até gritou que eu era linda! Como era bom ter fãs de verdade. Inspirei-me e
decidi fazer melhor, comecei a rebolar mais, cruzando as pernas e balançando os
braços com muito mais afinco – era realmente difícil manter o equilíbrio.
Infelizmente não ganhei primeiro lugar e por muitos anos
não entendi a razão. Também não entendia porque durante semanas as pessoas
passavam por mim e começavam a rir. Eu suspeitava que era admiração. Hoje, dez
anos depois, sei que era algo um pouco diferente de admiração, mas agora até eu
dou risada quando lembro ou olho as fotos do ocorrido. Agora sei que devo
rebolar com moderação.
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