Aluno 108
1 Versão
Para começar é necessário
considerar uma margem de erro de uns dez minutos no horário do ônibus. Dez
antes pra não ter que correr atrás dele ou dez depois pra não se aposentar na
parada. E é melhor não criar expectativas imaginando poder sentar e ler durante
o percurso porque, mesmo que o veículo tenha 45 lugares, normalmente ele
transporta o dobro deste número em pessoas. Não só porque normalmente não há
lugares vagos, mas porque a terceira fila de pessoas em pé impede qualquer tipo
de movimentação. Justamente por isso o figurino deve ser bem planejado, tendo
em vista não só o calor humano ali presente, mas também os prováveis puxões,
empurrões e as tropeçadas que são consequência da equação: aglomerado de
pessoas comprimidas mais motorista que acelera nas curvas. Outra peça
importante do vestuário é o calçado, porque ele vai ser pisoteado.
A dica é escolher sabiamente em
que parte do ônibus parar, utilizando aqueles quinze segundos entre pagar a
passagem e passar a roleta para perceber: onde tem janela aberta, onde tem
espaço para a mochila, onde tem gente falando alto, onde está a criança que
chora e grita. Deste modo poderemos escolher o melhor lugar para ficar
espremido. Por fim, para chegar até a saída é preciso fazer um pouco de
ginastica, um pouco de contorcionismo, segurando na barra do teto e como ela é
mais curta andando na ponta dos pés, enquanto nos esprememos pela terceira fila
de pessoas. Ao chegar à porta finalmente apertamos a campainha pedindo que
ônibus pare, caso ele não desacelere gritamos “vai descer!”, então descemos – mesmo
que uma parada além do desejado.
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