quinta-feira, 9 de junho de 2016

Uma paixão ascendente

Aluno 70
Reescrita


Independente do seu nível intelectual ou acadêmico, determinados questionamentos sempre seram difíceis de serem caracterizados. Talvez, eu apenas seja um garoto de Porto Alegre, filho de um eletrecista e de uma dona de casa, crescendo em um meio hostil, onde pessoas sem atitude (como eu) não possuem oportunidades. Devido a este pequeno espaço de oportunidades, neste imenso mundo, acabei por desenvolver determinados gostos. Na adolescência, fugir do mundo real era um dos meus passatempos prediletos. Nas páginas dos quadrinhos, eu poderia ser o "ideal" do humano perfeito, sem defeito algum, demonstrando o melhor da humanidade. Perante à sociedade eu era fraco e indefeso, mas nos livros, eu me imaginava sendo um forte cavaleiro, o qual, salvaria o mundo de uma catástrofe eminente.
            Uma das minhas maiores dificuldades, ou talvez característica, é definir meus padrões sociais, estéticos ou ideológicos em determinadas situações, sendo aquela pessoa que fica "em cima do muro". Sempre fui péssimo em ter de definir ou caracterizar algo, acabando por ficar em um eterno devaneio de palavras. Poucas são as certezas presentes em meu cotidiano. Desde criança, possuo um alto nível de timidez, indecisão e pessimismo em relação à sociedade e meus deveres nela. Talvez, eu seja "pessimista" pelo fato de ter passado uma grande parte da minha infância com meu tio (único tio por parte de pai). Ele possuia uma visão mundana um tanto quanto "peculiar". Ele era um homem extravagante, com fortes opiniões a respeito de tudo (política, futebol ou até culinária). Quando eu tinha onze anos de idade, ele veio a falecer. Desde sua morte, tudo mudou. Minha personalidade tornou - se completamente diferente e obscura, acabei por me tornar um garoto solitário e tímido, desenvolvendo um alto nível de depressão, tendo uma vida conturbada. Durante anos, a sensação que eu tinha perdido meu melhor amigo se manteu constante. Poucas eram as motivações para continuar.
            Provavelmente, por possuir pouco senso de liderança e não ser “tão” desinibido (muito menos popular em certos meios sociais), me dediquei aos estudos e deveres escolares. Tal tio, citado anteriormente, era um professor de história aposentado. Provavelmente, minha paixão pelo ensino tenha sido herdada dele. Durante alguns anos almejei o sonho de ser um historiador (assim como ele), porém, minha paixão pela linguística era maior ainda. Escolher ser professor sempre foi um paradigma muito forte no meu cotidiano. Meus pais nunca apoiaram tal ideia. Porém, a paixão pelo ensino é mais forte que qualquer contradição familiar. O desejo de mostrar a outros jovens um mundo inteiramente novo, contido em pedaços de papel com infinitas possibilidades, guiou-me ao curso de Letras. Cursando Letras, não estou apenas seguindo os passos de um grande homem, ou então, não pretendo apenas ser um "simples" professor de literatura, porém, quero contribuir com um pensamento crítico a respeito do sistema e suas diversas diretrizes, questionando por qual motivo somos induzidos a sermos quem somos.
            Eis minha personalidade hoje: Um observador da modernidade, um crítico do sistema, uma pária social. Acima de tudo, sou alguém mais decisivo, com uma eterna paixão pelo conhecimento. Posso, até dizer, que sou um homem "realizado". Devo isto ao fato de ter encontrado algo que gosto, seguindo os passos de uma pessoa que amei com todas as minha forças, sendo o ensino, em minha vida, uma paixão ascendente.

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