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Aluno 131
A
culpa, se é que existiu, foi do belo, não minha. Que isso fique bem claro!
Aconteceu que ela acordou atrasada para aula. Escovou os dentes, trocou de
roupa, respondeu algumas mensagens no celular, passou maquiagem, fez chapinha,
pegou a mochila, respondeu outras mensagens e saiu correndo. Ignorando a minha existência
naquele momento, como você também faz. Ela até lembrou, mas o tal do tempo,
sempre mais importante do que eu, venceu. Ele sempre ganha. Você deve estar
pensando. Ai que drama, que carência! Sim, estou sendo dramático porque foi
horrível o que aconteceu depois. Vale destacar, com certa tristeza, para ela, e
um pouco de constrangimento, para mim: este foi o último dia em que Lola
evitou-me.
Dentro
do carro, no caminho para escola, revirando a mochila tentando encontrar o
crachá para passar pelo guarda, ela encontrou um pirulito, 7 Belo, que de belo
não tinha nada. Alegria instantânea, naquele momento. Um pirulito a deixou mais
feliz que eu. Pode isso?! Enquanto ela lambia aquele pirulito, uns fios de
cabelo grudaram nele, que nojo. Ela nem viu. Chegou na escola, sorriu para o
guarda, entrou na sala.
“Hey teacher!”. Era inglês no primeiro
período. E já estava quase acabando, como o pirulito que ela tinha na boca.
Ainda me pergunto: como algo tão simples e banal faria tanto mal?! Ela não é a
única rejeitar-me todos os dias. No Brasil todo, na verdade, muitos de vocês
até sabem de minha influência mas, ah! Fica para amanhã. Se tem algo que eu admiro
nos gringos é a seriedade com que me tratam. Fico lisonjeado! Aí, então, tocou
o sinal, hora da educação física. Vestiário, trocar de roupa. Todo mundo no
ginásio. O professor apita, aquecimento, correr em volta da quadra 5 minutos.
Lembra
que algo horrível aconteceu? Enquanto corria, Lola começou a desfalecer, ficou
branquinha, branquinha, tremendo muito, caiu no chão, convulsionou. Todos os
colegas em choque, professor apita, para tudo. Chama a ambulância, correria,
ajuda gente, ajuda! Chega a ambulância, avisa a família. Hospital.
Depois
de todos os procedimentos e de sua recuperação, o médico fez algumas perguntas
e, adivinha? Lembra do belo? É, o pirulito foi à razão de Lola convulsionar.
Sim! Lola convulsionou e foi parar no hospital, porque me substituiu. Falei que
a culpa não foi minha! Talvez do Belo, talvez negligência de Lola, talvez dessa
cultura que me desvaloriza. Não sei, deixo para você.
Desde então, Lola acorda meia hora mais cedo
para que possa desfrutar de minha glória. Agora ela me trata com interesse,
relevância e prestígio. Lola aprendeu que nem tudo que é belo é bom e/ou faz
bem. E eu, ah! Eu agora sou muito famoso naquela escola, ganhei status. O
professor de educação física nunca mais começou a aula sem perguntar “Pessoal,
todos tomaram café da manhã?!”.
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