1ª
Versão
Por Aluno 20
Saltimbanco: substantivo masculino que significa artista de feira ou de
circo e acrobata. Palavra peculiar que possui uma sonoridade interessante. Seu
plural “saltimbancos”, nomeou um musical interpretado por jovens na década de
setenta, o qual abordava a história do conflito do proletariado contra os
detentores dos meios de produção a partir de uma alegoria teatral em que quatro
jovens animais cansados da repressão de seus donos, fogem em busca de sucesso
como artistas. Já para mim, “Saltimbancos” é significado de força, persistência
e amizade.
Não recordo exatamente a data, sei que foi no ano de 2011, no período do
Sarau Literário do Colégio Piratini, no qual cursei meu ensino médio. Todo ano
esse evento cultural era realizado com o objetivo de maximizar o conhecimento
artístico dos alunos. Minha turma sempre fizera apresentações que se destacavam
entre as demais por ser composta por pessoas que sentiam que a dedicação por um
trabalho escolar poderia gerar resultados que iam além de notas e boletins.
Entretanto, aquele ano seria diferente, tínhamos a vontade de fazer algo
melhor, pois aquele era o nosso último ano escolar, nossos últimos atos como
alunos de ensino médio.
A proposta era uma apresentação artística que compreendesse o tema “O
jovem no palco através das décadas”. Eu e meus colegas quebramos a cabeça para
encontrar algum texto interessante e surpreendente para ser representado,
quando uma colega sugeriu “Os Saltimbancos”. Muitos foram contra. “Teatro de
criança!”, “Animais cantando?”, “Por que interpretar bichos artistas?” – foram
diversas as questões levantadas até se obter um acordo geral. Decidimos pelo
musical sugerido, uma vez que nenhuma outra ideia surgira.
Os ensaios iniciaram e as desavenças também. Não éramos alunos
organizados, uns coordenavam e outros xingavam, a todo o momento a gritaria e a
bagunça estavam presentes. Era muito difícil transformar uma turma de trinta
alunos em um elenco teatral, sendo que todos eram amadores e estavam em meio de
provões e cursinhos pré-vestibular. Não era apenas uma peça, era um musical em
que todos os atores interpretavam animais - aqui, talvez o leitor pense o
quanto superficial esse sentimento parece ser diante de tantos problemas
cotidianos, porém devemos pensar a importância das situações colegiais no
momento em que se é apenas aluno. Era o último ano, a época de formatura e o
adeus a muitos amigos, precisávamos de alguma forma transformar aquele momento
em algo que pudéssemos lembrar de uma maneira saudosa e especial. E acredito
que foi isso que nos manteve unidos mesmo diante de tantos obstáculos que a
falta de preparo e recursos nos ocasionara. Passávamos tardes debruçados sob
uma cena que não dava certo, os mais sensíveis choravam com a possível derrota.
Realmente com tantos estresses de um ano de transição do período escolar para a
vida adulta, parecia que não seria possível fazer uma apresentação
surpreendente.
Com o tempo, a turma foi se acostumando com as falas e canções
interpretadas pelos animais. Aquele texto adaptou-se a nossa realidade,
tínhamos entrado na história de uma forma que Os Saltimbancos pareciam
pertencentes àquela turma de terceiro ano.
O dia da apresentação chegara, todos estavam muito nervosos, com o
coração batendo mais forte. Queríamos impressionar, existia uma gana da turma
por algo melhor, surpreendente. Os quatro personagens principais, burro,
cachorro, galinha e gata, já estavam de figurinos e cara pintada. Pareciam
alegorias coloridas no meio dos corredores do colégio. Os outros da turma, que
interpretariam e dançariam as músicas teatralizadas, corriam de um lado para o
outro para deixar tudo pronto, para que tudo desse certo.
“Senhoras e senhores, com vocês, Os Saltimbancos!”. A apresentação
aconteceu e acredito que tenha sido o que passou mais rápido. Agradamos o nosso
público, professores e colegas de outras turmas. Fizemos a plateia rir e se
emocionar com aquele amadorismo de alunos despreparados para um palco. Tivemos
muitas palmas, e nos convidaram para apresentar novamente nos outros turnos de
aula. Com certeza, toda essa lembrança é linda para mim e para todos que
estavam envolvidos. Entretanto, acredito que não foi a apresentação em si que
fez com que essa etapa tenha ficado tão presente em minha memória. Aquele foi
um ano conturbado, cheio de compromissos com o colégio, cursinho, a
responsabilidade de passar no vestibular e o receio de deixar de conviver com
pessoas amigas. “Os Saltimbancos” nos uniu de uma maneira que transformou a
turma em uma família, precisávamos estar muito engajados para que aquela apresentação
acontecesse e tudo que aprendemos na construção desse pequeno espetáculo, foi o
valor da força que um pode fazer em todos e o quanto precisamos lutar para que
as coisas deem certo. No fundo, éramos uns saltimbancos mesmo, no sentido da
história da trama, ninguém sabia ao certo o que queria da vida, contestávamos
tudo e nos achávamos alunos melhores dignos de tentar fazer a melhor
apresentação do Piratini. Naquela época, em uma atividade colegial, estávamos
aprendendo sem perceber os principais valores de trabalho e persistência para a
vida fora dos portões de proteção de uma escola.
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