sábado, 10 de maio de 2014

Uma Tarde de Junho

 Reescrita
Por Aluno 18

Morte: cessação definitiva, ausência da vida. Palavra tão temida e evitada. O que ela pode ensinar a alguém além de sofrimento? Uma tarde de junho de 2005 ensinaria mais tarde.
A menina levantou assustada e chorando depois de um pesadelo. Ainda de pijamas, a garota implorou à tia para que fosse com ela em um lugar. Porém, sua tia disse que já era tarde e a menininha precisava preparar-se para ir à escola. Havia muita coisa a fazer em pouco tempo: os temas, tomar banho, almoçar. Chateada, ela obedeceu. Arrumou-se e partiu para a escola na parte da tarde, seguindo o caminho oposto ao que havia implorado para sua tia levá-la. Alguma coisa dizia a ela que não seria um bom dia. Na escola, pouco se animou. Quando fugiu da sala de aula, encontrou seu pai caminhando em direção a ela. Os olhos dele estavam cheio de lágrimas. O pior de seus medos havia se concretizado: sua avó morrera naquela tarde. Por não tê-la levado ao hospital mesmo depois de tanto implorar, o primeiro sentimento a tomar conta da garota foi o ódio por sua tia.
A garotinha chegou ao cemitério e teve um choque. Não reconhecia sua avó: os olhos de concha estavam fechados, a boca não esboçava o sorriso largo de sempre, os braços estavam cruzados e não chamavam a menina para um caloroso abraço como de costume. Sentiu-se revoltada e passou por sua cabeça que a culpa era da própria avó por não ter lutado o suficiente para estar em vida com ela, mas envergonhou-se por tal ideia. Tentou lembrar-se de algo bom e viajou para um momento vivido com a avó pouco tempo antes, uma espécie de “despedida”. Sentindo o aroma das bergamotas entrar pelas narinas, fechou os olhos e imaginou o sol quente batendo em seu corpo e no da avó, a grama macia na qual estavam deitadas, a bergamoteira acima delas, o aperto no peito que sentia – e que perdurava até o momento – naquela tarde de domingo. “Eu sempre vou te amar, meu anjo”, disse a avó. “Será que ela sabia que cinco dias depois iria para o hospital e nunca mais voltaria?”, perguntou a garota. Isso é uma resposta que nunca saberia, pois a única pessoa que poderia responder já não estava aqui.
Quase dez anos depois, ainda é difícil pensar naquela tarde. A sensação de angústia é praticamente automática. Foi necessário a garotinha de nove anos, que tinha acabado de perder a avó, ter vivido outros nove anos para entender as lições que a morte, logo, a ausência de alguém pode ensinar. A principal delas é a de que as pessoas devem partir sem que tentemos culpar a outros ou a elas mesmas por isso, como a garota fez inicialmente com sua tia e com a própria avó. Mesmo sofrendo e sentindo saudades, a menina sobreviveu; ajudou sua família a superar a perda de maneira muito valente sem nunca se esquecer do que a avó representou em sua vida.

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