sábado, 10 de maio de 2014

Aprendizado

Reescrita
Por Aluno 10



Frequentemente eu presenteio minha avó com livros. Como ela gosta muito de ler e, em função da idade, não pode sair para escolher materiais de leitura, sempre que eu passo em alguma livraria faço questão de procurar romances para ela. No entanto, esta é uma tarefa relativamente difícil para mim, pois minha avó é alemã e só lê literatura nesta língua, enquanto que eu sei muitíssimo pouco de alemão. Desse modo, costumo ler os títulos e as sinopses dos livros. Se entendo um pouco do que se trata e me parece interessante, eu compro o exemplar.
Um cuidado especial que costumava ter, entretanto, era o de não escolher livros que tratassem de temas ligados à guerra. Acontece que minha avó veio para o Brasil após sofrer vários anos como fugitiva da Segunda Guerra Mundial e eu sempre escutei histórias horríveis sobre quando os soldados russos invadiram o território alemão e sua família teve de presenciar mulheres sendo abusadas, pessoas sendo torturadas e inúmeras crueldades com crianças. Por um milagre, minha avó e seus parentes sobreviveram, e ela pôde fugir para o Brasil com seu marido, onde se estabeleceu. Ainda assim, conforme meu conhecimento de alemão permitia, eu tentava evitar que os livros a fizessem lembrar desse período de sofrimento.
Uma noite, porém, quando fui à livraria escolher literatura para minha avó, só sobrou uma opção de livro após excluir as obras que eu não sabia do que se tratavam e aquelas que eu já tinha adquirido. Chamava-se “Contos russos de amor”. Eu comprei o exemplar e levei para casa. Contudo, fiquei muito receosa de dá-lo como presente, por se tratar de histórias do povo russo, aquele que minha avó tinha visto fazer tantas barbáries. Então passei um dia em posse do livro, pensando: mas e se eu entrego o exemplar e acabo trazendo tristeza pra ela? Por outro lado, ela gosta tanto de ler, será que isso faria alguma diferença? Pensei que se eu tivesse presenciado a guerra talvez nunca mais quisesse ouvir falar do povo que atacou minha cidade.
Porém, eu realmente não sabia o que fazer e decidi que a opção menos arriscada seria consultá-la antes de lhe entregar a obra. Então, esperando um “é melhor você trocar o livro, querida”, telefonei para ela. Expliquei que eu só tinha encontrado aquele título, mas que se ela não se sentisse bem em ler literatura russa eu poderia procurar novos livros em outros lugares.
Para minha surpresa, ela respondeu: “Mas por que eu não ia me sentir bem? Assim como tiveram russos muito maldosos, também existiram russos muito bons e um deles até salvou minha vida. O problema não é a nacionalidade de alguém.”. Quando ela disse isso, eu me lembrei de uma história que ela havia contado há muito tempo sobre um russo que abriu sua casa para minha avó e a escondeu por vários dias, enquanto soldados procuravam alemães naquela região para os matar. E, daí, eu me dei conta de que, só por saber alguns acontecimentos da guerra, eu havia escolhido enfatizar a maldade dos soldados russos e criar um preconceito para com esse povo. Minha avó, por outro lado, mesmo tendo presenciado tantas crueldades, escolheu se lembrar de uma atitude positiva que um russo teve para com ela e preferiu nunca julgar um povo inteiro por causa da atitude de alguns.
No momento em que eu ouvi aquela resposta, fiquei impressionada por minha avó não guardar qualquer mágoa do povo russo. Todavia, aprendi naquele instante que, independentemente da origem das pessoas, sempre existirão indivíduos com bom e mau caráter. Quando minha avó aceitou tranquilamente o livro que lhe dei, ela me ensinou que mesmo em uma situação horrível como a guerra, há pessoas dispostas a fazer o bem. E enxergar isso em vez de notar apenas a maldade é uma escolha que cada um pode fazer.




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