quinta-feira, 19 de junho de 2014

Através do espelho

Reescrita
Por Aluno 13


         É, talvez, a tarefa mais difícil a de me olhar no espelho. Ver refletida a minha imagem num objeto que, um dia, já foi polido com areia. As vezes nem percebo que mudei, de tão habituada a olhar-me no espelho de maneira superficial. Notando uma foto antiga, no entanto, posso ver tudo aquilo em que sou diferente e refletir sobre quem me tornei. Quais as escolhas que fiz para tornar-me quem sou? Com quais experiências entrei em contato e quais aquelas que optei absorver? Responder a essas perguntas frente ao espelho parece coisa de louco. Louco, na verdade, é não notarmos como mudamos.
Louco, também, é percebe o quão abrangente o termo “leitura” pode ser e não ser, ao mesmo tempo. No texto de Britto (2012), a questão da definição da leitura é abordada de maneira que me faz refletir sobre os diferentes tipos de leituras e se as minhas concepções desse termo são, de fato, válidas. Ler a luz, a mão, o jogo, o mundo, o filme, a imagem e, finalmente, o texto. Ler um filme, atenho-me a esse tópico e, frente ao espelho, reflito. O quão diferentes podem ser esses tipos de leitura? Aparentemente, muito! Ler requer duas habilidades importantes

“... decifrar e compreender, interligadas de tal modo que, em princípio uma implica a outra, contudo, são distintas em seus fundamentos e qualidades ...” (BRITTO 2012, p. 20)

de maneira que suponho serem necessárias duas atitudes distintas perante essas habilidades. Decifrar, então, não iria requerer as mesmas atitudes para a realização quanto as necessárias para compreender. Decifrar se aplicaria, creio, ao texto escrito, “ ... que aparece como o elemento base do ato de ler ... ” (BRITTO, 2012, p. 21), enquanto que compreender poderia se aplicar a qualquer atividade que não necessariamente escrita.
            A leitura é tida como uma atividade exclusiva de alguém que cursa, por exemplo, Letras, como eu. Contudo, as experiências que se relacionam à leitura, das quais consigo lembrar, são bem escassas. Enquanto reflito em frente àquele espelho e minha imagem reflete no mesmo, percebo que isso soa contraditório para um aluno que estuda letras. Talvez eu não tenha atribuído tanta importância a esse hábito enquanto criança e, por isso, consiga lembrar-me de pouquíssimas narrativas significantes. Coisa que me lembro, todavia, com bastante clareza é de ir ao cinema, quando pequena, com minha tia. Não a minha madrinha, a outra; a madrinha do meu irmão – sim, eu tenho um irmão.
            Lembro-me que tudo começava domingo de manhã quando, honrando o compromisso semanal, íamos almoçar na casa da minha avó paterna com toda a família – e lá estava minha tia. Da cozinha passávamos, então, à sala: onde a magia acontecia. Lá, escolhíamos o filme lendo a coluna no jornal Zero Hora destinada à “filmologia” – e nem pensar em escolher o Cinema, já era de praxe que iríamos nas salas do Moinhos de Vento. Aquele carro com cheiro de novo (sempre!), as luzes da sala do cinema apagando (restando apenas a placa de Saída), os apoios de cadeira azuis para os pequeninos que, como eu, não conseguiam sentar na gigantesca poltrona vermelha do cinema – ah, o cinema!
O cinema: uma experiência importante para a consolidação da minha relação com a leitura. Não só porque a minha tia preferia filmes legendados a dublados (e preferir significava que iríamos, de qualquer maneira, obedecê-la), resultando numa longa maratona de, aproximadamente, duas horas tentando acompanhar as imagens, o enredo, as trilhas-sonoras e as letrinhas amarelas na parte inferior daquela tela que, para mim, na época, parecia descomunalmente gigante. Mas também porque me causava imensa alegria conseguir agrupar tudo isso (as imagens, as letrinhas, as músicas, o idioma e até o figurino dos personagens) ciente da dificuldade da tarefa para o cérebro de uma criança.
            Ir ao cinema com a minha tia era uma escolha, apesar de eu não poder escolher a língua cujo vocabulário eu era, de acordo com a minha idade, fluente.

“Há, aparentemente, duas situações de leitura que parecem não compor com este quadro: de um lado estão as leituras automáticas e pragmáticas – aquelas que se impõem à pessoa no espaço social para fazer as coisas da vida contemporânea numa sociedade normatizada [ ... ]; de outro lado, aparecem as leituras, por assim dizer, obrigatórias [ ... ] Enfim, supõe-se que o gesto de ler seja voluntario, desobrigado, ainda que “comprometido”, no sentido de que representa um investimento pessoal em algo importante. Por isso mesmo, a autonomia e a escolha são aspectos bastante valorizados. ” (BRITTO, 2012, p. 29).

Ler durante o filme era inevitável, ainda bem! Porque

“... a leitura frequentemente permite situações positivas de ampliação da subjetividade e da capacidade de agir com propriedade na sociedade. Seria, portanto, um hábito humanizador. ” (BRITTO, 2012, p. 29)
“Disso se pode concluir que promover a leitura seria promover uma forma de pertencimento crítico ao mundo. Um valor, portanto. Um valor que carrega um princípio de humanidade e que implica, mais que o simples hábito, uma atitude. ” (BRITTO, 2012, p. 30)

e promover o desenvolvimento dessa atitude foi oportuno para a minha futura profissão: professora! Claro, eu não sabia, na época, que viria querer ser professora. Eu sonhava em ser, como eu dizia para minha mãe, uma “lanchonete” (uma garçonete de “lancheria”) ou uma diretora de um presídio roxo.
Como as minhas escolhas me direcionaram a cursar Letras, o contato com uma língua estrangeira, nesse caso o inglês, e a leitura das legendas (definindo, nesse caso, leitura como ação ou efeito de ler (BRITTO, 2012, p. 20)) me proporcionou um sentimento de “habitualidade” ao idioma. De maneira que, hoje, não me parece uma língua estranha sonoramente. Percebendo a manifestação dela durante uma leitura acadêmica, por exemplo, não a consideraria um empecilho.
            Outra experiência de leitura adquirida durante aquelas duas horas é o contato com as imagens sem a necessidade de busca de sentido às mesmas. Uma imagem é bastante concreta (e há quem diga que vale por mil palavras), logo, “ler” a imagem não era o problema quando eu ia ao cinema. A dificuldade estava em relacioná-la à legenda, porque, afinal,

“A compreensão do texto parece amiúde uma tarefa difícil [ ... ] porque não conseguimos relacionar o objeto a um todo maior ...” (KLEIMAN, 1995, p. 10).

Além, é claro, de, as vezes, me deparar com um vocabulário ao qual eu não estava acostumada, não tendo, dessa forma, o conhecimento prévio enciclopédico necessário para fazer inferências.
Se me for permitido chamar esse contato com as imagens de leitura, afinal,

“ Há, neste caso, um objeto cultural bem definido (não se está diante da própria realidade, mas sim de uma representação dela ou de uma projeção de uma possibilidade) e há o interpretante, que busca encontrar sentido naquilo com que interage ...” (BRITTO, 2012, p. 25).

Contudo, considero “ler um filme” estrangeiro um tipo de leitura, que não é tão óbvia quanto decifrar as letras da legenda, quanto associar as palavras formadas ao vocabulário inglês, ou quanto perceber a estruturação e entonação das frases, mas também é uma tarefa complexa. Pode-se dizer [ ... ] que a leitura tem a ver mais que com decifração, com escolhas. ” (BRITTO, 2012, p. 19).
Escolher um filme em outra língua e “lê-lo” me estimulou a buscar maneiras criativas de associar o audível ao visível, habilidade útil para o que eu viria a ler futuramente. E não só é recomendado para mudar a maneira que vou ensinar a leitura para os alunos – tornando-a mais didática –, como também para estimulá-los a utilizar estratégias para desenvolver a flexibilidade. Não almejo, como professora, transformar os alunos em leitores “compulsivos” que apenas decifram códigos e não sabem interpretar aquilo que não se apresenta da maneira que eles foram treinados para reconhecer (imagens, conta de luz, filme).

“Refletir sobre o conhecimento e controlar os nossos processos cognitivos são passos certos no caminho que leva a formação de um leitor que percebe relações, e que forma relações com um contexto maior, que descobre e infere informações e significados mediante estratégias cada vez mais flexíveis e originais. ” (BRITTO, 2012, p. 9).
Podemos ensinar a compreensão? [ ... ] O papel do professor nesse contexto é criar oportunidades que permitam o desenvolvimento desse processo cognitivo ... e uma dessas oportunidades é por meio de estímulos audiovisuais que permitam aos alunos uma interação com outras línguas e com imagens para desenvolver. ” (BRITTO, 2012, p. 1).

Portanto, perguntar-se “como cheguei até aqui? ” frente ao espelho, não é “coisa de louco”. Nos faz refletir (das duas maneiras possíveis) sobre nossas escolhas. E olhar-nos no espelho nos faz perceber o quão diferente somos e o quanto crescemos, não só em tamanho, mas em experiência.  Minha relação com a leitura tem melhorado a cada dia, e a cada livro tenho uma história nova para contar. E, ainda hoje, toda vez que vou ao cinema, lembro-me da minha tia me perguntando “pipoca doce ou salgada? ”, seguida de uma resposta “meio a meio!”.

Referências

BRITTO, Luiz Percival Leme. Leitura: Acepções, sentidos e valor. In: Nuances: estudos sobre educação. V.21, n. 22, p. 18-32, jan./abr. 2012.
KLEIMAN, Angela. Texto e Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura. 4ª. Ed. Campinas, SP: Pontes, 1995, p. 01-27.

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