1ª
Versão
“(...) Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há
um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente “para não te
mandar”. Agora podes lê-las todas. Não encontrarás nada do meu passado, do qual
nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer perguntas. É
pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como minha vida já foi feia e
escura e como lutei e sofri para encontrar a tranquilidade e a paz de Deus.
Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva.
Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva.
Tua para a eternidade,
Olívia.
Eugênio
dobra a carta com todo carinho. Seus olhos estão inundados de lágrimas e ele
encontra um esquisito prazer no sofrimento e na tristeza. (...)”
Esse
trecho de “Olhai os Lírios do Campo”, escrito por Erico Verissimo, pareceu-me a
melhor forma de iniciar essa trajetória pelas minhas vivências e de, a partir
disso, construir um belo memorial de leituras.
Se a memória não falha, conheci
“Olhai os LÍrios do Campo” em um janeiro de intenso calor em meio ao mar e ao
sol. Acredito que em 2009. Eu já era uma apaixonada pelas obras de Erico
Verissimo - ele havia me conquistado com Clarissa, ainda em 2006 - mas foi
somente em 2009 que tive o prazer de conhecer essa história tão fascinante, que
veio pela indicação de uma professora de português e literatura da minha escola
de ensino fundamental.
Pois bem, lembro-me de estar deitada
em uma rede verde, na casa da minha tia Ivete, quando abri o livro de capa
amarela e preta. O primeiro parágrafo me chamou, imediatamente, a ler o resto
da página, pelo menos. Isso que é, em minha concepção, autor bom. Aquele que
pega a gente pela mão e diz: “vem, vem que tem muito mais para você aqui”. E eu
fui.
“O médico
sai do quarto nº 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
- Irmã
Isolda - diz ele em voz baixa -, avise o doutor Eugênio. É um caso perdido,
questão de horas, talvez minutos. E ela sabe que vai morrer.
Silêncio. (...)”
Silêncio. (...)”
Que
incrível para uma menininha de 14 anos que só havia lido histórias infanto
juvenis até então.
Sabem, eu sempre gostei de ler. Meus pais sempre me presenteavam livros; a mim e a minhã irmã. Mas a importância dessa obra, em especial, é tamanha, porque foi dela que nasceu em mim o status de leitora. Sim, eu me tornara uma delas. Não havia mais salvação. Eu estava destinada a ser uma naquelas que nunca vai ter tempo para ler todos os livros que compra, nem todo o dinheiro que necessita para comprar todos os livros que quer, mas aquela que nunca vai deixar de ler. E eu leio tudo, desde literatura à instrução de rótulo de shampoo (preferindo, porém, a primeira opção). Enfim, agora você deve estar aí se debatendo de ansiedade querendo saber o porquê de tanta devoção após esse livro, que talvez não diga nada para você. Eu respondo: eu sou Olívia. Eu sou Eugênio[1]. Eles são eu e nós somos um só.
Pela
primeira vez, em toda minha curta existência, eu havia “conhecido” pessoas que
eram tão parecidos comigo. Mas eu não descobri isso logo aos 14 anos. Essa
descoberta faço até os dias de hoje: sempre que me pego relendo aquelas páginas
amareladas e reconheço ali um pouquinho mais de mim; de quem sou, do que amo,
do que dói em mim, do que me faz criança e etc. São essas as sensações que só
os livros - e nada mais - podem causar em pessoas como eu: leitoras.
“Calça furada!
Calça furada-dá!”
Gritavam
em cadência uniforme, batendo palmas. Eugênio sentiu os olhos se encherem de
lágrimas. Balbuciava palavras de fraco protesto, que sumiam devoradas pelo
grande alarido.”
Olhem eu
ali. Sim, eu estou bem ali. Não gritando em cadência uniforme, mas com a calça
furada. Ali estou eu na escola, naquela tarde em que, sem querer, sentei em um
banco que continha um prego “semi-pregado”, e eu, ao levantar bruscamente,
rasquei a minha calça bem na “bunda”. Naquela época não existia o conceito de
bullying. Mas foi bullying. E dos grandes. Fiquei sem ir à aula por uma semana,
escondida na vergonha de ter uma calça rasgada em pleno recreio escolar.
“O dia
mais importante da minha vida foi aquele em que, recordando todos os meus
erros, achei que já chegara a hora de procurar uma nova maneira de ser útil ao
próximo, de dar novo rumo às minhas relações humanas. Que era que eu tinha
feito senão satisfazer os meus desejos, o meu egoísmo? Podia ser considerada
uma criatura boa apenas porque não matava, porque não roubava, porque não
agredia? A bondade deve ser uma virtude passiva. (...) Eu via ao meu redor
pessoas aflitas que para se salvarem esperavam apenas uma mão que as apoiasse,
nada mais do que isso. E Deus me dera duas mãos! (...)”
Ali estou
eu, mais uma vez, nas palavras da sábia Olívia. Tudo que eu havia pensado, até
então, era fazer uma bela faculdade de Medicina e ganhar um bom dinheiro para
viajar, ter uma casa com muitos cachorros, marido, filhos e uma cozinha
maravilhosa com louças Tramontina. Eu era péssima com biologia, odiava química
e, de vez quando, me incomodo profundamente com sangue. Há, no mundo, muitos
indivíduos que só precisam de uma mão que as apoiasse, e Deus me dera duas. Há
inúmeras crianças que teriam chance, oportunidade e até “jeito” (como gostam de
dizer os ignorantes) se alguém lhes estendesse às mãos. E assim, florescia em
mim, quase que imperceptivelmente, uma visão distinta de mundo. Distinta do que
eu, até então, considerava bom e razoável; assim como o que eu considerava ser
horrível. Aprendi e nunca mais esqueci: a bondade deve ser uma virtude passiva.
Assim,
todo esse reconhecimento com a obra, que fora retratado anteriormente, e os
aprendizados que dela pude tirar nada mais são do que, conforme Paulo Freire
(FREIRE apud BRITTO, 2012, p. 24), a
persepção da vida-vivida. É a ampliação da forma de ser e perceber do
mundo. Pois foi somente após essa leitura que muitos dos pré-conceitos que eu
sutilmente tateava puderam se tornar conceitos, enfim. Reconhecer-se naquela
cena tola de calça furada ou aprender uma lição de vida é, segundo Britto:
A
leitura do mundo, desde as experiências subjetivas mais íntimas até as relações
histórico-sociais mais complexas: a consciência delas e seu reconhecimento
seriam condição fundamental para que a aprendizagem formal fosse instrumento de
maior participação e de transformação da ordem social injusta.
(BRITTO, 2012, p.24).
Agora,
porém, voltemos um pouco. Estamos em 2005. Já faz muito tempo... Não me recordo
com precisão como se iniciou a minha leitura da saga “Junie B. Jones”[2].
Nem sei dizer, exatamente, o porquê de meus pais terem escolhido esses
livrinhos para cumprirem o papel de serem minhas primeiras leituras. Só me
lembro que eu possuía os cinco volumes de uma saga de livros que contavam as
aventuras de Junie B. Jones, uma garotinha sagaz e impetuosa. Um detalhe
importante é que esse livrinho continha inúmeras figuras, e a sua concretude
era inquestionável.
Assim, o
que mais me marcou em “June B. Jones” foi a forma com que eu comecei a ver e
pensar as nuances do mundo. Através das figuras, que estavam em meio à história
narrada, eu tinha a possibilidade de transportar-me para o outro mundo - o do
livro. Assim, também afirma Britto (2012), “(...) A leitura de imagens trata-se
de reconhecer um objeto cultura, que não é o mundo em si, mas uma forma de
percebê-lo. Nesse contexto, acredito que
isso é de suma importância no letramento de uma criança, pois foi assim que, em
minha educação, pude encontrar sentido e significação no ato de ler. Britto
(2012) ilustra a razão da importância da leitura de imagens, “A pessoa, ao
interagir com um livro de imagem em que se narra uma história tem de
estabelecer relações, preencher vazios, acompanhar ações e perceber sentido nas
formas dos traços.” O que, para mim, nada mais é do que um grande estímulo.
BIBLIOGRAFIA
BRITTO,
Luiz Percival Leme. Nuances: estudos sobre Educação. Ano XVIII, v. 21, n. 22,
p. 18-32, jan./abr. 2012
PARK,
Barbara. Um pouco de xeretice. 1.ed. São Paulo: Arxjovem, 2004.
VERISSIMO,
Erico. Olhai os lírios do campo. 4.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
[1] Olívia e Eugênio são os protagonistas da obra “Olhai
os Lírios do Campo”, publicada em 1938 por Erico Verissimo. Olívia e Eugênio
são médicos, vivem um romance durante a graduação em Medicina, porém separam-se
devido às ambições urbanas de Eugênio em ter prestígio e status social. Olívia vem a falecer, deixando para Eugênio, no
entanto, uma filha, Ana Maria, e, ainda, uma lição de vida.
[2] “Junie B. Jones é uma saga norte americana de livros
infantis escritos por Barbara Park. Foram publicados entre os anos de 1992 e
2007.
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