Aluno 159
Reescrita
Reza
a lenda que aprendi a escrever aos três ou quatro anos. Eu continuo insistindo
que nasci sabendo. Isso porque não me lembro da minha vida antes da escrita,
tampouco do meu processo de alfabetização. Não tenho a mais vaga recordação da
minha “pré-história”.
Minha trajetória na literatura
começou aos cinco anos quando escrevi um poema sobre o pôr-do-sol de Porto
Alegre. Hoje chamo essa minha fase de “gauche-bairrista”. No tempo do
“gauche-bairrismo” eu ainda era deslumbrada: mal acabava de escrever e já ia
correndo mostrar o que tinha escrito a quem estivesse por perto. Pouco tempo
depois, aos seis anos, adaptei um texto de Ruth Rocha para uma peça teatral.
Maravilhado com a dramaturga promissora que tinha como filha, meu pai me deu de
presente uma peça de Henrik Ibsen, “A Casa de Bonecas”. Ironicamente, acabei
por abandonar a dramaturgia e só fui retomá-la aos 12 anos, quando escrevi uma
peça intitulada “O Sentido da Vida”, inspirada por textos do “Caderno H” de
Mario Quintana e pela peça “Sobre Anjos & Grilos”, encenada por Deborah
Finocchiaro.
A partir dos nove anos, minha
escrita passou a ter seu tema determinado pelas minhas obsessões, que foram do
niilismo ao conflito árabe-israelense, do marxismo-leninismo ao impressionismo.
Fui obcecada por cinema, teatro, artes visuais, política. Fui obcecada por
escrever: e escrevi. Ou ao menos tentei. Foi justamente nessa fase de progresso
epistemológico pulsante que eu desenvolvi o que chamo de “baixa autoestima
intelectual”. Nada que escrevo me agrada, principalmente no que tange à
produção literária. Nota-se, ao longo da minha trajetória na escrita, uma
ressignificação do verbo escrever: na
primeira infância, escrever era apenas sobre formar palavras juntando letras e
representar por meio da escrita; posteriormente, escrever passou a significar escrever bem, produzir literatura
genuinamente, ser original, ter estilo. Curiosamente, segundo minha própria
ressignificação da palavra, eu não sei
escrever. Um fato que evidencia essa perda do deslumbramento quanto ao que
escrevo ocorreu quando, aos treze anos, fui a uma peça encenada por Deborah
Finocchiaro e levei comigo uma cópia da minha peça “O Sentido da Vida”, mas
minha “baixa autoestima intelectual” superou minha vontade de entregar o texto
em mãos para a atriz. Quando a peça terminou e todos foram aos bastidores
conversar com Deborah, deixei minha peça debaixo de uma arma que fazia parte do
cenário e saí correndo.
É
devido a essa baixa autoestima do intelecto que venho colecionando, desde os
nove anos, ensaios, artigos, aforismos, peças teatrais, poemas, crônicas,
romances e canções que jamais mostrei a quem quer que seja. Uma única exceção
ocorreu no ano de 2016. Aos quinze anos, cursando o terceiro ano do Ensino
Médio, tive um “insight” – ou um momento de epifania, melhor dizendo - durante
uma aula de matemática: escrevi uma paródia do poema “América”, de Allen
Ginsberg. Sob o título “Brasil”, trata-se de um desabafo acerca da conjuntura
política de nosso país no ano em questão. Nele faço referências a Cazuza,
Torquato Neto, Gonçalves Dias, Rubens Paiva, Vladmir Herzog, Sergio Buarque de
Holanda, Marighella, Geraldo Vandré, Godard, Marx, Simone de Beauvoir e
Hobsbawm. Durante alguns meses consegui gostar do que tinha escrito. Mostrei
minha paródia para quatro amigos mui íntimos.
Foi
então que, depois de algumas “autoreleituras”, o excesso de citações e
referências passou a me causar incômodo. Comecei a me perceber como alguém
volúvel, maleável, sem estilo próprio ou personalidade literária. Em uma
palavra: influenciável. E, como disse o personagem Lorde Henry, do romance “O Retrato
de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, “Toda influência é imoral – imoral do ponto de
vista científico. Influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa alma.”. Sob
essa perspectiva, minha alma seria uma espécie de Frankenstein das almas
daqueles que me influenciam. Há quem diga que essa plasticidade é justificada
pela minha pouca idade. É lugar-comum na literatura a noção de que é impossível
ter um estilo próprio enquanto se é jovem, no entanto, Goethe, aos 25 anos,
provou o contrário ao escrever “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, obra que
marcou o início do romantismo. A juventude não é, de forma alguma, um fator
limitador na escrita, pelo contrário: citando Oscar Wilde novamente, “não sou
jovem o suficiente para saber de tudo”.
Atualmente,
aos 16 anos, continuo sendo a aspirante a escritora de sete anos atrás: ainda
com grandes questões existenciais sobre autoestima do intelecto, estilo e
originalidade. Entre uma produção textual e outra, algo que me conforta é a
presença constante da influência de Mário Quintana me lembrando de que eu não
preciso me preocupar, pois “estilo é uma deficiência que faz com que cada autor
só pode escrever como pode” e talvez esse meu estilo meio antropofágico, cheio
de citações e paráfrases de estilos alheios, seja mesmo um estilo próprio.
Talvez minha forma plástica de escrever que venho moldando há anos nunca assuma
um formato sólido, e esse não-formato seria sua própria originalidade.
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