Aluno 159
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Reza
a lenda que aprendi a escrever aos três ou quatro anos. Eu continuo insistindo
que nasci sabendo. Isso porque não me lembro da minha vida antes da escrita.
Não tenho a mais vaga recordação da minha “pré-história”.
Minha trajetória na literatura
começou aos cinco anos quando escrevi um poema sobre o pôr-do-sol de Porto
Alegre. Hoje chamo essa minha fase de “gauche-bairrista”. Aos seis anos,
adaptei um texto de Ruth Rocha para uma peça teatral. Maravilhado com a
dramaturga promissora que tinha como filha, meu pai me deu de presente uma peça
de Henrik Ibsen, “A Casa de Bonecas”. Ironicamente, acabei por abandonar a
dramaturgia e só fui retomá-la aos 12 anos, quando escrevi uma peça intitulada
“O Sentido da Vida”, inspirada por textos do “Caderno H” de Mario Quintana e
pela peça “Sobre Anjos & Grilos”, encenada por Deborah Finocchiaro.
A partir dos nove anos, minha
escrita passou a ser determinada pelas minhas obsessões. Fui obcecada por
Nietzsche: escrevi aforismos. Fui obcecada por geopolítica: escrevi sobre o
conflito árabe-israelense. Fui obcecada por Oscar Wilde: escrevi um ensaio intitulado
“A Alma da Mulher sob o Socialismo”. Fui obcecada por marxismo-leninismo:
escrevi sobre Revolução Russa, Revolução Cubana, Revolução Islâmica e Guerra
Civil Espanhola. Fui obcecada por “Nouvelle vague”: li Françoise Giroud e Susan
Sontang, escrevi sobre Godard. Fui obcecada por impressionismo: escrevi sobre
Monet e Renoir. Fui obcecada por escrever: escrevi. Ou ao menos tentei. Foi
justamente nessa fase de progresso epistemológico pulsante que eu desenvolvi o
que chamo de “baixa autoestima intelectual”. Nada que escrevo me agrada,
principalmente no que tange à produção literária. Venho colecionando, desde os
nove anos, ensaios, artigos, aforismos, poemas, crônicas, romances e canções
que jamais mostrei a quem quer que seja.
Uma
única exceção ocorreu no ano de 2016. Aos quinze anos, cursando o terceiro ano
do Ensino Médio, tive um “insight” durante uma aula de matemática: escrevi uma
paródia do poema “América”, de Allen Ginsberg. Sob o título “Brasil”, trata-se
de um desabafo acerca da conjuntura política de nosso país no ano em questão.
Nele faço referências a Cazuza, Torquato Neto, Gonçalves Dias, Rubens Paiva,
Vladmir Herzog, Sergio Buarque de Holanda, Marighella, Geraldo Vandré, Godard,
Marx, Simone de Beauvoir e Hobsbawm. Durante alguns meses consegui gostar do
que tinha escrito. Mostrei minha paródia para quatro amigos mui íntimos.
Foi
então que, depois de algumas “autoreleituras”, o excesso de citações e
referências passou a me causar incômodo. Comecei a me perceber como alguém
volúvel, maleável, sem estilo próprio ou personalidade literária. Em uma
palavra: influenciável. E, como disse o personagem Lorde Henry, do romance “O
Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, “Toda influência é imoral – imoral do
ponto de vista científico. Influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa
alma.”. Assim sendo, minha alma é um Frankenstein das almas daqueles que me
influenciam e “meu estilo” - cheio de citações e paráfrases de outros estilos -
é, como diria Mario Quintana, uma “deficiência que faz com que eu só possa
escrever como posso”. Há quem diga que essa plasticidade é justificada pela
minha pouca idade. É lugar-comum na literatura a noção de que é impossível ter
um estilo próprio enquanto se é jovem, no entanto, Goethe, aos 25 anos, provou
o contrário ao escrever “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, obra que marcou o
início do romantismo. A juventude não é, de forma alguma, um fator limitador na
escrita, pelo contrário: citando Oscar Wilde novamente, “não sou jovem o
suficiente para saber de tudo”.
Nota-se, ao longo da minha
trajetória na escrita, uma ressignificação do verbo escrever: de início, escrever era apenas sobre formar palavras
juntando letras e representar por meio da escrita; posteriormente, escrever
passou a significar escrever bem,
produzir literatura genuinamente, ser original, ter estilo. Curiosamente,
segundo minha própria ressignificação da palavra, eu não sei escrever. Terminemos com um fato engraçado: Aos treze
anos fui a uma peça encenada por Deborah Finocchiaro e levei comigo uma cópia da
minha peça “O Sentido da Vida”, mas minha “baixa autoestima intelectual”
superou minha vontade de entregar o texto em mãos para a atriz. Quando a peça
terminou e todos foram aos bastidores conversar com Deborah, deixei minha peça
debaixo de uma arma que fazia parte do cenário e saí correndo.
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