Aluno 158
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Ela tinha 25 anos quando
saiu de casa, e fez questão de deixar tudo que lembrava ele para trás. Minha
dinda, irmã do meu pai, sempre foi a pessoa adulta que eu mais gostei. Ela
estudava muito, trabalhava muito, mas principalmente sempre me tratou como
adulta também. Não que ela me cobrasse uma maturidade que eu não tinha, mas
fazia questão que eu pensasse sozinha e sentisse orgulho de mim mesma. O que eu
não sabia é que ela estava em um relacionamento, de 10 anos, o qual não
conseguia sair.
Eles se conheceram quando ela tinha apenas
14 anos, eram vizinhos, e ficaram juntos até o dia que ela se mudou. Eu o
conheci, e adora ele, todos adoravam, todos diziam que sairia casamento, filhos
e tudo mais. Fui batizada por eles e fiquei extremamente chateada quando se
separaram até o dia que realmente soube de verdade desse namoro. Eu tinha 15
anos mais ou menos, fazia quatro anos que ela saiu de casa, quando fui até lá
visitar meus avós, como de costume. Entrei na antiga casinha nos fundos do
terreno, onde morou minha bisavó. La dentro tinha muitas e muitas caixas e
percebi que eram todas de minha tia. Perguntei a minha avó se ela não voltaria
para buscar e ela disse “não vai não, isso é tudo que lembra ele”.
Na hora não entendi porque ela não queria
lembrar, a ponto de deixar tantas coisas lá, então minha avó disse para eu
tentar lembrar realmente deles, e eu lembrei. Recordei, mais especificamente
esse episódio: Eu estava na casa de meus avós esperando ela ficar pronta, pois
iríamos no aniversário do meu priminho. Quando ela saiu do quarto vestia um
vestido vermelho e segurava alguns cadernos da faculdade, lembro que tinham a
capa do Mickey até hoje. Ela estava linda. Até que seu namorado perguntou o que
ela estava fazendo que além de vestir vermelho, levava coisas para estudar e
ele não aprovava nenhuma. Na hora não entendi direito e deixai passar. Eu dormi
lá naquela noite e a encontrei chorando na cama. Na ingenuidade dos meus 10
aninhos, apenas sentei do lado dela e fiquei. Depois dela se acalmar perguntei
o que houve e ela disse: “ Elenna, a dinda nunca fez nada por ela, mas agora
ela vai, e tu também”.
Voltando a lembrar do dia do aniversário,
lembrei-me dela sentada lendo várias folhas, no fim da festa e agora, além do
vestido, seu batom também era vermelho. No dia das caixas encontrei diários e
várias cartas, mas não li nenhuma. Não valia a pena relembrar algo que a fez
tão mal. Até porque, o dia do aniversário foi provavelmente nada comparado ao
que ela viveu e eu não soube.
Depois de me dizer aquelas palavras, ela
fez, e fez muito. Separou-se daquele que só a fazia mal e encontrou alguém que
a ame e respeite verdadeiramente. Formou-se, se mudou, trocou de emprego e
viveu toda sua adolescência perdida. Quando parei para recordar o
relacionamento deles, em minha memória poderiam ter vindo varias discussões e
gritos, mas o dia do vestido vermelho me marcou, pois foi quando ela decidiu a
pensar sozinha e sentir orgulho de si mesma, como me ensinara.
O ano de 2017 foi quando garanti minha
primeira grande conquista, a de ingressar na universidade que tanto desejava.
Foi também o ano que Karina (minha dinda) me ligou anunciando sua gravidez,
depois de três longos anos de tentativas. Agora vira mais uma geração da
família, que será ensinada sempre a fazer coisas para si mesmo. Isso tudo
porque ela teve coragem de deixar tudo que lembrava ele para trás.
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